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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

UM ATENDIMENTO DO HOSPITAL SANTA LÚCIA E DO PLANO GAMA DE SAÚDE
Paulo Roberto Guimarães Moreira *

No dia 12 de janeiro de 2011 cheguei ao atendimento de emergência do Hospital Santa Lúcia. Moro no final da asa norte e o Hospital Santa Helena fica próximo, mas a comida é péssima, de criatividade zero. E o atendimento lembra o INPS: aquele monte de doentes desesperados esperando uma consulta. Realmente saúde e educação no Brasil são péssimas, para não dizer um palavrão. Bem, sempre fui bem atendido no Santa Lúcia. Ela tinha TV à cabo (acho que NET).
Hospital tem que ser muito melhor que hotel e infelizmente não é. Hospital é aquele lugar que você, desesperadamente, vai buscar amor. Porque o que adoece é a falta de amor, principalmente, de amor próprio. Quem não é uma bênção para os outros não pode trabalhar num hospital, a começar pelo faxineiro. Quem não sabe rir também não. Pessoas cansadas também não.
Voltei ao Santa Lúcia. Que decepção! Um monte de gente sendo atendida por uma só médica que corre toda para lá e para cá, resolvendo tudo. Médica bonita, ótimo. Agora, se o profissional não for bonito que seja simpático, amoroso, prestativo, interessado, que você sinta que ele está, também, do seu lado. A Médica me disse que era do signo de aquário: aí disse a ela que ela era inteligente também, porque aquariano burro morre no parto. Mas, ela estava sobrecarregada e por isso demorava.
Aí faltou orientação da equipe, que equipe? Tinha equipe? Parecia algo meio desorganizado. Por isso me mandaram para os Raios-X que demorava 10 minutos a revelação das chapas para a médica ver. O laudo só no dia seguinte. E depois eu fui fazer exame de sangue que demorava uma hora para ficar pronto.
Mas, ainda viria o pior: o Gama tinha que autorizar minha internação. Foi diagnosticado pneumonia. Suspeita de insuficiência do coração que se apresentava aumentado, o que para mim era novidade. Eu estava, há dias, respirando mal e o sangue estava com baixa oxigenação. Já havia passado 3 h que eu estava no hospital. Tinha ido ao banheiro, pela última vez às 17 h. Era 1 h quando solicitamos ao Gama essa permissão. Eram 4 h da manhã quando a permissão saiu. Ficar 3 h na madrugada esperando uma permissão nas condições que eu me encontrava é indignante. Eu nem pago o Gama, ele vai à minha conta e saca religiosamente e na hora que quer a quantia que eles me disseram que eu tinha que pagar. Nunca esperaram um segundo para eu autorizar. A autorização é automática. Por que eu tenho que no momento mais crítico de minha vida, quando corro risco de morte, quando sofro muito de madrugada tenho que esperar como um pedinte, um esmo léu, como se eu tivesse pedindo um favor? É indignante! É uma afronta a dignidade humana esse tipo de saúde capitalista selvagem! Não podemos e não vamos aceitar isso! Vou publicar essa reclamação como uma crônica na internet e farei sempre isso quando me sentir ultrajado dessa forma e tenho certeza que haverá resultado.
O que continua curioso e que não mudou nesses meus 41 anos de experiências e cadeira de rodas é que as pessoas comuns e, pasmem, muitos profissionais, perguntam muitas vezes olhando para minha secretária: - É ele que assina ou é você. Ou seja, continuam nos vendo como pessoas, absolutamente ou relativamente, incapazes. É um gigantesco absurdo isso no século XXI.
Mas, o calvário não terminou aí. Antes, quando eu fazia a nebulização, me informaram que só um acompanhante podia me acompanhar. Mas eu estava em cadeira de rodas, sou paraplégico há 41 anos, sou pesado e meu amigo me ajudaria se preciso fosse a passar para a cama, a menina Fátima resolveria outros assuntos. E havia pelo menos dois clientes acompanhados por mais de uma pessoa. Pedimos permissão para entrar mais uma pessoa e uma funcionária perguntou: - É para ajudar? Eu respondi que sim. Logo veio um segurança com aquele bigodinho tipo Cantinflas. Com aquele corpo de porteiro de boate ou de bordel e depois de inspecionar o ambiente, policialescamente, disse de forma autoritária: - Só pode ficar um acompanhante. É estranho que no século XXI um hospital, para onde vão pessoas e famílias fragilizadas tenham seguranças? Deviam ter outro nome e outra postura. Deviam ser educados. Em certo ano a polícia de Tóquio deu seis tiros: para cima. Lá a polícia estuda arte, é preparada para ter a sensibilidade e a inteligência emocional para resolver, quase todos os problemas, sem uso ou ostentação da força. Vocês da medicina capitalista têm que tratar o cliente da melhor maneira possível, o ideal seria amar o cliente, pois é isso que ele quer e precisa. É só isso que cura, nada mais. Na saída, disse ao segurança que me olhava com ironia e superioridade (não sei por que, deve ganhar uma merreca para desempenhar aquele papel infantil de mocinho que se acha): - Olha, amanhã estarei aqui na ouvidoria para relatar cada detalhe da minha estada aqui. Ironicamente, ele respondeu: - Boa noite! Já eram quase 6 horas da manhã.
Mas, não termina aí. As duas punções que o técnico fez para pegar minha artéria para ver o nível de oxigênio no sangue foram frustradas. Também a Médica disse que doía, a funcionária do guichê disse que doía e o técnico disse: - Dói muito. Já foi difícil ir lá e dar o braço ao técnico, mas terminar a coleta foi impossíbel. Saí dali e disse: Dra. me interna nem que seja só por um dia. Fui me internar. Quando cheguei ao terceiro andar, em frente à famosa sala 324, que a 3h 30 m eu já sabia ser o meu quarto, ninguém sabia. Porta fechada. Chamam a Hotelaria. Volto a esperar. Eu e minha acompanhante entramos em desespero. Depois de 30 m aparece a hotelaria. Vou para cama ainda discutindo com a enfermeira que já nos recebeu com cara de brava, se era às 9 h que eu ia fazer o cateterismo ou alívio da bexiga ou naquele momento? Eu não urinava há mais de 10 h. A contra gosto a enfermeira veio fazer e não conseguiu, até porque quando fico muito nervoso os isfincteres, interno e externo, da bexiga, se fecham. E ainda imaginei: - É essa mulher com essa cara e aborrecida comigo que vai fazer a punção de minha veia para colocar o soro. Não! Vamos embora. Assinei um documento lá e me mandei para minha casa. Foi o melhor que fiz
Brasília, 12 de janeiro de 2011
* Paulo Roberto Guimarães Moreira é Economista e Mestre em Filosofia pela PUC-Rio, está no 3º semestre se Direito do UniCEUB, deu aulas no ensino superior por 30 anos. Quando ficou paraplégico morou 2 anos e meio na ABBR – Associação Brasileira Beneficiente de Reabilitação, e passou a conhecer o funcionamento de um hospital melhor que muitos profissionais que ficam 6 meses fazendo residência médica.