Palace Hotel - Caxambu

domingo, 4 de junho de 2017

Jornal "O Tempo" - ENTREVISTA - Muitas sabedorias do mundo

Nascido em Juiz de Fora, Edimilson de Almeida Pereira, professor e ensaísta, participou do grupo de artistas Abre Alas, ao lado de escritores como Iacyr Freitas, Eustáquio Gorgone e Luiz Ruffato. Ao longo de 20 anos, viajou pelo interior mineiro pesquisando culturas populares rurais e afro-brasileiras. É professor de literaturas africanas em língua portuguesa e de literatura portuguesa e participa da edição 2017 da Flip.
Como se dá sua iniciação no percurso das letras?
Sou professor da Faculdade de Letras de Juiz de Fora desde 1987. Comecei a trabalhar como professor e ingressei em uma trajetória acadêmica transdisciplinar, passando por literatura, comunicação, antropologia e religiosidade. Como me formei em letras, também fui trabalhar em escolas públicas em uma junção de atividade de pesquisa e atividade escolar. Boa parte de minha vida adulta se deu nesse espaço. Quando ingressei na universidade, tive contato com um grupo de literatura, o Abre Alas, que fazia movimentos de poesia marginal, saraus de rua. Éramos todos estudantes. A universidade teve esse papel agregador. Era um movimento de rua importante, formado por fotógrafos, cineastas, artistas plásticos, prosadores. E essa formação de várias formas de criação foi importante para conformar minha linha de pensamento. Cada um se tornou escritor com carreira individual, como Iacyr Freiras, Fernando Fábio Fioreze, Júlio Polidoro. Participava do grupo Eustáquio Gorgone de Oliveira, já falecido. Sua obra merece ser olhada com atenção, porque ele representa uma renovação da poesia do século XXI. Ele não era da universidade, já tinha mais idade que a gente. Ele vem do Sul de Minas, Caxambu, onde se criou uma estrutura cultural bem específica, com uma lógica cultural que é local, mas que permite aos intelectuais um pensamento de base universal.
Além da vivência acadêmica, ligada à experiência do campo, você também tem toda uma criação artística que vai dialogar com as relações históricas, sociais e identitárias, assim como passa pela periferia e dialoga com outros mundos.
Sim, minha criação poética vai se nutrir desse intercâmbio de saberes. Minha formação como poeta vai se dar pela leitura de poetas do cânone ocidental, mas também pela convivência com mestres populares, raizeiros, congadeiros, mestres da Folia de Reis. Um referencial pra mim foi um mestre de Folia de Reis com quem convivi em Jequitibá, Nelson Jacó, já falecido. Durante as entrevistas que fizemos com ele, uma frase virou meu guia: “O mundo é feito de muitas sabedorias”. Isso sintetiza minha linha de pensamento, de promover discursos por meio da escuta e do diálogo, atravessar uma postura dialética com o mundo pelo interesse pelo outro e de se desdobrar para o outro. O Nelson era extraordinário. Víamos ali o saber não institucionalizado, na forma de vida cotidiana com a experiência do sagrado, do trabalho, da vida rural. Ao lado de (Carlos) Drummond (de Andrade, ele forma minha experiência literária. Minha preocupação vem da experiência de vida, de base periférica, onde o cotidiano valoriza a diversidade. Venho de um mundo multicultural em que o dia a dia era um processo de afirmação de valores. Esse microcosmo me marcou. Minha preocupação sempre foi reproduzir experiências em suas múltiplas formas. Pensar o mundo a partir da diversidade faz parte de mim, além de aprofundar num esforço contínuo de autoquestionamento. Por isso, a forma de ensaio me foi um espaço de interesse porque é sempre autocrítico.
Você vai participar da Flip pela primeira vez.
Sim, meu trabalho com ensaio e poesia nunca teve interesse em divulgação midiática. É mais fechado e restrito, cauteloso. Participei de poucos e grandes eventos, e o convite veio, acredito, pelo que o trabalho em si propõe. Venho atuando, trabalhando com etnografia, antropologia e literaturas brasileira, portuguesa, africanas de língua portuguesa, criação poética e literatura infantil.
Uma das mesas que você participa diz, inclusive, desse público, trazendo uma pergunta importante: “qual olhar de mundo você tenta transmitir?”.
Até os anos 90, frequentei escolas públicas como professor. A literatura infantil mantém esse caráter pedagógico. Depois, me retirei, não podia acompanhar, mas ministro uma oficina teórica para literatura infantil. Discuto a necessidade de construir uma crítica da literatura infantil do Brasil, com um trabalho de reflexão sobre as bases dessa literatura, as obras, as etapas. Nesse sentido, a literatura infantil ocupa meu tempo no mesmo grau de importância das outras áreas, afinal, a vida é uma roda-viva. E essa é uma área fascinante, que propõe questões muito sérias. Vivemos esse dilema de ser um tipo de literatura pedagógica que propõe um método de ensino, ao mesmo tempo em que valoriza a fruição, o prazer e o descobrimento pelo espectador jovem.
Você também participa da mesa sobre o homenageado da Flip, Lima Barreto. Como a trajetória e a obra desse escritor te atravessam, assim como marcam a nossa literatura?
Ele só me atravessa e se dispersa em minha formação como pensador, por questões de ordem prática. Quando cheguei ao curso de letras, tive a oportunidade histórica de ter aula com a professora Teresinha Scheer, que no final do curso abriu espaço para discutir Lima Barreto. Na época, eu não o conhecia, mas vi identificações estéticas de um autor afrodescendente, do subúrbio carioca, com a experiência de exclusão que eu já conhecia. Também o texto dele, de um processo de escrita e autocrítica, de ironia pra entender a exclusão do intelectual negro, não me parecia distante das de outros autores que eu conhecia e de experiências que eu iria vivenciar. Ele foi referência de um sujeito que, dramaticamente, teve que conviver com um ambiente que é hostil e é também seu ambiente de formação cultural. E essa ideia mais tarde se tornou mais evidente em minha obra.
Observando nomes como Conceição Evaristo, que também estará na Flip, ou Carolina Maria de Jesus, nome que tem despertado interesse de outros espaços, como refletir a literatura afro-brasileira hoje, tanto em termos de criação, produção e também de mercado editorial?

Acho que tem um detalhe importante tratando-se de um evento como Flip, que tem caráter de visibilizar autores, com certo traço também com o mercado. Eu sempre trabalhei como criador e teórico sem pensar no mercado. No passado e no presente, pensando nos homens e mulheres negros no Brasil, a primeira experiência que se tem é a perda da humanidade. Um homem escravizado chega sem essa condição. Ele é uma peça, um objeto. Cito nomes de autores e poetas como Ricardo Aleixo, Cuti, Miriam Alves, o pessoal dos Cadernos Negros, Oswaldo de Camargo, Allan da Rosa. Para esses autores, acredito, um momento vital é recuperar essa humanidade que nos foi tirada, e, apesar a abolição, a visão das pessoas negras como objeto permaneceu entranhada na sociedade brasileira. Esse trabalho tem sido feito ao longo de décadas e envolve muitos indivíduos. Quando o mercado olha pra essas pessoas, ele não é o ponto final. O ponto contínuo são a reflexão e a crítica ao processo de invisibilização desses povos, de violência às mulheres e à população indígena. Há esse fundo de natureza política quando essa literatura volta para a sociedade e dialoga fazendo perguntas daquilo que precisa ser melhorado. Espaços como o mercado ou a Flip são só mais um fórum onde essas questões podem ser debatidas de forma mais aberta.

Fonte: Jornal O Tempo